A ciência e a sabedoria por vezes tornam o homem tímido; por isso é preciso força no coração, para que não desanime diante das necessidades. Este é o dom da fortaleza, pois, como diz Isaías, o Senhor dá força aos cansados e vigor aos que são fracos.
Pedimos o pão de cada dia, isto é, o necessário para o dia de hoje, contra a solicitude excessiva pelos bens da terra; pois diz o Senhor: não vos inquieteis, dizendo, que comeremos ou que beberemos.
Além do pão que alimenta o corpo, há dois outros pães. O pão sacramental, que todos os dias se prepara na Igreja e recebemos como penhor da nossa salvação, pois disse o Senhor: eu sou o Pão vivo que desceu do céu. E o pão da palavra de Deus, pois nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Do desejo deste pão nasce a bem-aventurança dos que têm fome e sede de justiça, saciada por fim na vida eterna.
Pedimos que este pão nos seja dado a cada dia, e ele pode entender-se de modo espiritual e literal, pois Cristo é o pão da vida, e este pão é dos que estão unidos ao seu corpo.
Ao discípulo de Cristo cabe pedir o alimento de cada dia, sem estender o desejo da sua petição a um longo tempo, como o Senhor ensina: não vos inquieteis com o dia de amanhã.
Pedimos o pão, não os celeiros. A petição é humilde no objeto, o necessário de hoje, e confiante na fonte: um Pai que sabe do que precisamos antes que peçamos.
Quem reza «hoje» renuncia à ansiedade do amanhã e recebe o presente como dom. E aprende a ter fome do pão maior, a Palavra e a Eucaristia, mais do que do que perece.
Dai-me hoje, Senhor, o que basta para hoje, e a fome do Pão que não perece. Amém.
- Santo Tomás de Aquino, Comentário sobre o Pai Nosso (Collationes in orationem dominicam), §53-62
- São Cipriano de Cartago, A Oração do Senhor (De dominica oratione), 18-19
